Não é fácil conceituar a espiritualidade, embora seja uma expressão religiosa que a princípio tenha a ver com o relacionamento de Deus com o ser humano, tornou-se na cultura moderna, um termo abstrato, vago e presente em quase todos os segmentos da vida: da religião a economia, da ecologia ao mundo dos negócios. Para entender melhor o que significa espiritualidade nos dias atuais precisamos associá-la a outras duas expressões que se encontram intimamente conectadas: subjetividade e pós-verdade, juntas elas formam o tripé para a compreensão da cultura contemporânea. O mundo moderno era racional, científico, positivo, acreditava-se na bondade natural do ser humano, era um mundo de certezas e sólidas convicções, porém após duas guerras mundiais e uma infinidade de conflitos étnicos, políticos e econômicos essa era de certezas deu lugar a um espírito cínico e desiludido. O mundo pós-verdade é o mundo do desencanto, da decepção, da desilusão, das incertezas. Emocionalmente a modernidade refletiu o progresso, o otimismo, a confiança nas descobertas tecnológicas, a pós-verdade é o oposto, é negativa, irracional e subjetiva. O rápido processo de secularização, o rompimento com as tradições, a relativização dos valores e dos costumes, o fortalecimento do individualismo e a quebra do consenso social apresentaram uma nova agenda para sociedade. Esse mundo solto, sem referência criou uma nova forma de ateísmo: a irrelevância de Deus e uma forma de espiritualidade subjetiva sem nenhum fundamento bíblico.

Uma espiritualidade sem Deus

A realidade vem se tornando mais abstrata e virtual e a estética é a nova base da identidade, se no passado levávamos nossas questões para serem julgadas no tribunal da razão e da sã doutrina, hoje elas são arbitradas na jurisdição das emoções e dos sentimentos. O critério que valida a experiência é o bem estar pessoal. É dentro desse cenário que surge o termo espiritualidade, estabelecendo uma nova agenda para a igreja. Espiritualidade é o tema da agenda religiosa do século XXI está presente em todos os encontros, debates e discussões. Todos conversam sobre o assunto: falam suas experiências, descrevem seu momento espiritual, empresas preocupam-se com o estado espiritual de seus executivos oferecendo cursos e palestras para “elevar” o espírito e melhorar o rendimento profissional, livros e revistas de “especialistas” sobre o assunto surgem a todo momento. O surgimento dos livros de auto-ajuda e a “descoberta” da inteligência emocional abriu espaço para uma espiritualidade sem conexão com Deus, autônoma e liberal, além de enriquecer os seus “gurus”. A Reforma Protestante trouxe sem dúvida uma grande contribuição para a espiritualidade cristã, o protestantismo libertou milhares de pessoas da opressão, da ignorância e da superstição na Idade Média e apontou um caminho fundamentado nas Escrituras Sagradas, na Sã Doutrina, na centralidade de Cristo e sua obra expiatória, na suficiência da Graça, na Soberania de Deus sobre toda criação.

Reforma, Iluminismo e os novos teólogos

A Reforma Protestante do século XVI deu ao cristianismo uma grande e sólida contribuição ao estabelecer as bases da fé cristã. O Iluminismo surge nesse período dizendo que a razão teria que ser o sentido último sobre todas as coisas, o “Penso logo existo” destoa do pensamento dos pais da igreja que sempre ensinaram que conhecimento e relacionamento eram inseparáveis. Para eles conhecer a Deus vinha primeiramente de uma revelação do próprio Deus. A partir da revelação é que se pensava submetido a aquele que se revelou. Irineu, Orígenes, Agostinho, Benedito, Gregório, Ricardo de São Victor, Bernardo e tantos outros o pensamento que gerava uma fervorosa espiritualidade bíblica que se pautava pelo testemunho de serviço a Deus e ao próximo, emergia não de um tipo de racionalismo arrogante e sem conexão com Deus e sim da fonte onde estão todos as sabedorias: Deus. A força do Iluminismo gerou um novo tipo de teólogo: aquele que nunca orou e dependeu da revelação de Deus. Esse novo teólogo é limitado a si mesmo e as ciências da religião; ele é apenas uma pessoa dedicada que corre as bibliotecas e academias lendo e escrevendo teses, ensaios, monografias, sem nenhuma inspiração espiritual. Temos que recuperar urgentemente a nossa relação com Deus, para isso precisamos voltar para Ele em submissão a sua voz e na total dependência as suas ordens. A nossa vocação espiritual é para sermos Sal da Terra e Luz do Mundo e não arrogantes pensadores autônomos sem unção e o brilho do Espírito Santo.

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